Uma das teorias que Einstein nunca chegou a provar foi a da existência de Universos Paralelos, algo em que se confessava crente, realidades em que por um motivo ou outro a nossa história tomou contornos distintos e aquilo que conhecemos nesta realidade pode não o ser na paralela. A ser verdade, talves um dia alguém o prove, numa dessas realidades o passou-se o seguinte:
Cascais, 3 de Julho de 2005
A meio da tarde um telemóvel toca insistentemente.
“Que merda, ainda agora cheguei a casa. – pensou Gonçalo – a minha tia tinha dito que não havia nada para hoje à tarde que quererá?”
Gonçalo tinha 22 anos e depois de se ter matriculado na faculdade pediu transferência para o pós-laboral ao final de poucas semanas, o estilo de vida da tia aliciava-o muito mais, quase tanto quanto o trabalho dela, e por isso tinha optado por pedir-lhe para trabalhar para ela, e quando esse trabalho se tornou mais intensivo – mais ou menos na mesma altura em que o seu desempenho nas primeiras frequências foi uma calamidade – Gonçalo desistiu. Corria o ano de 2001. Hoje em dia estava totalmente instalado, de pedra e cal, a morar no Centro de Cascais a poucos quarteirões da casa da tia. Agora, ao telemóvel, não era ela.
“Oi!!! – era a Bé, uma prima doida que tinha entrado no ano anterior para a faculdade – Olha lá, nós vamos tomar Café ao Cup&Cino mais logo à tardinha queres vir connosco?”
“Epa por mim na boa... No sitio de sempre?”
“Não, o namorado da Tatiana esta a trabalhar num em Miraflores, ela precisa de ir buscar umas cenas para levar para os pais dele e assim aproveitamos.”
“Ahh... Ok! Então eu vou tentar estar lá por volta da 7 Ok?!
“Ok!”
Horas mais tarde...
Ao final de se perder três vezes, Gonçalo conseguiu avistar de soslaio o símbolo característico do franchise, minutos mais tarde tinha o carro estacionado e entrava no Café. Elas ainda não tinham chegado - 18:30 vira no relógio – reconheceu o namorado da amiga no Balcão e foi-lhe perguntar se já tinham chegado. “Não, mas senta-te. Devem estar a chegar.” Ficou com a sensação que não se lembrava dele, mas que lhe havia reconhecido a cara Claro que tinha que reconhecer, já tinham sido apresentados pelo menos duas vezes em Elvas. Sentou-se de costas para uma grande janela onde as duas últimas horas de sol, quentes ainda, entravam e iluminavam todo o espaço. Esperou... esperou mais um pouco... e sentiu a porta a abrir, virou-se para ver se eram elas... e... Não, apenas uma miúda, entrou dirigiu-se ao bar e falou com alguma familiaridade àquele que parecia ser o gerente. Voltou a por os olhos no menu estava indeciso entre uma Cola Foam, uma Margarita, ou um Batido de Gelado de Cacau – tudo a ver – e quando deu por ele estava a tentar lembrar-se da cara da miúda que tinha entrado – uma amnésia temporária nada característica, era normal esquecer-se de nomes, mas, não de caras – voltou a olha-la tentando memorizar os traços, boca pequena, olhos amendoados, cabelo curto meio aloirado, não se ia esquecer mais. Voltou a por os olhos no menu até porque ela tinha notado que ele estava a olhar. “Bronca, só dás cana, meu...” – pensou. Tentado desviar o olhar para disfarçar percebeu que não era o único homem sozinho no café e imediatamente depois percebeu porque, em frente dele tinha uma bomba brasileira que lhe perguntava que desejava. Disse que ia esperar pelas amigas, uma vez que, atravessavam a porta, imediatamente atras de um grupo pouco maior que se sentou na mesa da rapariga que tinha chegado momentos antes.
“’Tão, Gonçalito!!! – falou-lhe a prima – já cá estás há muito tempo?”
“Não... Também acabei de chegar. Tão, Tatxi tudo bem?”
“Oi querido. ‘Tá tudo. Olhem eu vou ali falar ao André. Ok?”
A Tatiana lá foi falar com o namorado e Gonçalo ficou com a Bé a falar. Ela estava em frequências mas não queria saber ia trocar de curso. E antes que ele conseguisse voltar a articular palavra de apoio, tinha notado que voltara a esquecer-se da cara da miúda, coisa que o irritava profundamente e o levou a voltar a olhar para ela. Era gira, traços muito giros, bochechas proeminentes, que lhe davam um ar fofo, e depois tinha um je ne sais quoi que cativava e por isso se deve ter prendido a olhar para ela a pontos da Bé lhe ter chamado a atenção.
“Estás a ouvir? Sim, olá?”
“Desculpa estava distraído... Dizias?”
“Já reparei que estavas e reparei com o que... E não dizia, perguntava. As coisas com a tua moça como estão? Já ta tudo resolvido?”
“Não... nem vai, já esta a levar as coisas lá de casa é melhor para os dois.”
“Sim estou a ver.” – Gonçalo voltou a desligar, dando-lhe uma vontade de conhecer a miúda, tinha um charme, uma maneira de estar que era hipnótica a situação tinha-se tornado incomoda para a Bé que fora deixada a falar sozinha uma vez mais, não fossem a Tatiana e o namorado chegarem, e uma vez mais Gonçalo corou ao reparar que até eles tinham reparado que ele estava a olhar para lá, por nada em especial, mas porque tinha sido apanhado numa situação incomoda e que podia levar a alguns mal entendidos.
“Chama-se Andreia” – disse o André sem que se houvesse perguntado nada – ´”É de Massamá e é amiga da casa. Muito porreirinha, simpática e tudo o mais desde que não lhe cheguem a mostarda ao nariz, aí saí de baixo.”
Gonçalo ficou com a sensação que já a tinha visto não sabia de onde nem de quando, provavelmente seria apenas uma sensação estúpida que temos quando sentimos uma forte empatia por alguém mas de qualquer maneira foi uma sensação que foi fortalecida quando os olhares se cruzaram por fracções de segundo, provavelmente alguém que já tinha visto algures. Depois desse fim de tarde, quando saiu do café, nunca mais a viu.
As vezes não importa as voltas que a nossa vida dê, de um modo ou de outro vamos sempre conhecer quem é suposto conhecermos.